Professores e alunos envolvidos na análise cinematográfica? Sim, é possível e acontece na Região Autónoma da Madeira.

Esta é a segunda de três peças publicadas em Educatio Madeira sobre Educação para os media.

Nesta entrevista, o coordenador do programa EducaMedia, da Direção Regional de Educação, apresenta o seu livro ‘Aprender com o Cinema’, em que elabora propostas de atividades para 40 filmes emblemáticos, explorando o potencial pedagógico dessas obras.

Vasco Cunha, de onde vem a ideia para este livro?

Este livro assume o nome do projeto ‘Aprender com o Cinema’, que continua a ser inovador no panorama das tecnologias educativas, desde que foi criado, há 10 anos. É uma área que não aparece muito explorada em livros, daí a necessidade de dar este suporte aos professores.

Em dez anos, foram criados cerca de cinquenta guias curriculares para os professores poderem explorar filmes, temáticas, problemáticas da atualidade.

Julguei pertinente pegar e compilar estes guias curriculares e acrescentar, também, uma parte teórica, fruto de um trabalho de investigação que fiz nesta área. Pretendo explorar conceitos, ao nível das tecnologias, dos media, dos audiovisuais, dando ênfase ao cinema nas escolas e contribuindo para que essa temática seja objeto de estudo em sala de aula, num modelo alternativo de aprendizagem.

É um livro de fácil leitura, sem muitos termos técnicos, pois foi orientado para todas as pessoas e, em especial, para os professores, numa perspetiva diferente e inovadora do processo ensino-aprendizagem.

Qual é o potencial pedagógico do Cinema?

O potencial pedagógico do cinema é enorme. Um dos principais papéis do cinema é comunicar socialmente, pelo que, obviamente, pode influenciar o desenvolvimento das crianças e dos jovens, nomeadamente no que se refere à sua personalidade.

Sabemos que a criança é estimulada através das imagens, dos sons, dos efeitos.

Facilmente estas imagens ficam gravadas na memória, quer das crianças quer dos jovens ou mesmo de nós próprios, adultos, ao ponto de nos lembrarmos de uma determinada cena de um filme para sempre. Se pensarmos um pouco, conseguimos lembrar-nos de cenas marcantes de um filme. Bem exploradas, essas histórias também serão interiorizadas pelos alunos e isso facilita, de certa forma, o trabalho de vários problemas, conceitos, valores ou problemáticas de uma sociedade.

Se repararmos, a criança aprende várias linguagens desde cedo.

No desenho, aprende a linguagem pictórica; na música — quando toca ou dança — aprende a linguagem musical; quando pinta, recorta ou manuseia determinados objetos, será a linguagem plástica; no ballet ou na ginástica, desenvolve a linguagem corporal; e, quando vê um filme, surgem-lhe sentimentos, surgem-lhe emoções, surgem-lhe fantasias, surge-lhe uma aproximação ao seu mundo e aos seus anseios, numa outra linguagem, a do cinema.

Todas estas linguagens são extremamente importantes e essenciais para o desenvolvimento de novos saberes na criança.

Muito provavelmente, os professores terão que se atualizar para conseguir proporcionar estas aprendizagens essenciais aos alunos.

Os nossos jovens — com alguma frequência — veem televisão, estão na Internet, veem filmes, se forem preparados para saber analisar e criticar, no sentido positivo, aquilo que veem, terão mais proveito em termos de conhecimento e aprendizagem, e isto irá ter influências nas várias áreas do saber.

Sugere guias didáticos específicos para 40 filmes?

Sim, o livro apresenta propostas de atividades para quarenta filmes relativos a temáticas ou problemáticas da sociedade, mas depende do que se pretenda abordar, seja a amizade, a xenofobia, o racismo, a pobreza, a exclusão social, o ambiente, entre muitas outras.

Estes filmes são selecionados segundo dois critérios: a idade dos alunos e o conteúdo temático a ser desenvolvido em sala de aula.

Os professores, com estes guias, podem desenvolver um trabalho transdisciplinar, tendo como ponto de partida a sétima arte. Desta forma, o professor tem disponíveis várias atividades, que podem ser trabalhadas em vários momentos, ao longo do ano.

Há cuidados a ter. Antes da projeção do filme, é essencial proporcionar aos alunos alguns conceitos, algumas palavras-chave sobre o que vão ver — sem desvendar muito a história — para, após o visionamento, através destas atividades propostas em contexto de sala de aula, explorar não só a compreensão do filme, mas também a análise de personagens, um trabalho relacionado com outras áreas do currículo.

Pretende-se que seja desenvolvido um trabalho transdisciplinar de forma flexível, para trabalhar conteúdos curriculares de diferentes disciplinas de uma forma diferenciadora e motivadora.

Estamos, aqui, a falar um pouco da flexibilidade curricular que temos explorado ao longo destes anos do projeto, pelo que o livro também dá suporte aos professores ao nível de conceitos.

Há relação com outros projetos do EducaMedia?

Sim, através das próprias atividades que são propostas, muitas delas são enquadradas no programa EducaMedia.

Os professores também poderão ter um apoio específico para as atividades que desenvolvem, atividades que estejam orientadas para outros projetos.

Resumindo, os projetos em si complementam-se com o intuito de explorar vários conceitos ao nível das tecnologias, dos audiovisuais, da educação para os media, da literacia nos media e também da publicidade, da produção audiovisual e, em específico, com um contributo maior relativamente à arte cinematográfica.

O Cinema ainda é a Sétima Arte ou perdeu-se no caminho?

Pegando numa referência, numa afirmação de Marcel Martin, em 2005, no livro ‘A Linguagem Cinematográfica’, este refere que «o cinema surge na sua afirmação de arte e não de ópio».

Logo aí, diferenciou-se desde o momento em que surgiu. No contexto em que vivemos, foca-se muito o discurso na globalização, na união entre os povos, devido às necessidades emergentes e atuais, pelo que as escolas têm que estar cada vez mais preparadas e nós já o sentimos na nossa realidade.

Verifica-se a necessidade de trabalhar a educação numa perspetiva multicultural. O cinema tem essa capacidade porque favorece a troca de informações e conhecimentos entre diferentes culturas.

Por outro lado, estamos a falar de uma indústria que é muito importante. Se pensarmos além do glamour dos atores e das atrizes, os principais protagonistas, existe também uma série de pessoas envolvidas, como o guionista, como o diretor, o compositor, o produtor, técnicos especializados para as várias partes do filme. Desta forma, o cinema é uma arte cada vez mais complexa e que tem vindo a acompanhar as evoluções tecnológicas, bem como as variações das comunidades e do mundo. É, pois, uma arte cada vez mais importante.

Acrescento que estamos inseridos num mundo onde se vive muito o individualismo, o consumismo, o idealismo, o sensacionalismo. As crianças são constantemente bombardeadas com várias mensagens, com publicidade vinda dos meios de comunicação em massa, que incute aquela ideia do ‘ter’, fazendo esquecer um pouco o ‘ser’. Existe uma necessidade premente de saber lidar com tudo isto.

Neste aspeto, o cinema devido às suas características, enquanto arte, pode ser um bom aliado da educação.

A evolução tecnológica e social traz novos desafios para a Educação. Qual será o desafio mais interessante?

Sabemos que a sala de aula é um espaço extremamente importante e que já não se identifica muito com o tradicional. Um dos principais desafios, ou pelo menos, o desafio mais interessante, será mudar a tradição. O professor terá de ter uma postura diferente, quer em termos de comunicação, quer em termos de interatividade.

Comunicar em sala de aula, atualmente, significa proporcionar a participação livre e plural dos alunos, utilizando também as tecnologias que têm à sua disposição.

Neste momento, as escolas já têm algumas tecnologias que poderão utilizar para que possam construir o seu próprio conhecimento, através da pesquisa, da análise, da reflexão e não só através da transmissão. Ou seja, neste aspeto, o professor terá que propor o conhecimento, procurando, também, a interatividade com os alunos. Se repararmos, um dos principais problemas que surge a quem se predispõe a ensinar é a motivação dos alunos. Quando isso acontece, quando a sala de aula proporciona aos alunos algo de que não gostam — porque são de uma cultura digital e se lhes tenta transmitir uma cultura analógica — perdem o interesse completo nesse espaço. Nesse sentido, a escola não caminha paralelamente com o mundo dos alunos e com as formas atuais de aprender.

As escolas precisam sobretudo de ser um espaço de investigação atento à vida dos alunos, tanto no campo social, como no campo político ou mesmo no campo económico.

Por isso é que a estruturação do currículo deve considerar princípios ou pressupostos importantes, tal como a diversidade cultural, a identidade, a autonomia e a interdisciplinaridade.

Vasco Cunha (à direita), na apresentação da obra, no IX Congresso de Educação Artística (Madeira)

É importante que o currículo seja abrangente e é necessário, também, pensar-se numa política de utilização dos meios de comunicação para divulgação de uma cultura positiva.

Um dos aspetos que se tem abordado, na atualidade, é esta questão da flexibilização, é esta questão da introdução dos media na educação, considerando a influência e a importância que têm na sociedade. Há uma preocupação emergente sobre a questão dos media na sociedade.

No entanto, sublinho que a nível regional estão a ser dados passos importantes a este nível, no que se refere à investigação, à modernização e à inovação das tecnologias educativas.

Peça retirada de Educatio Madeira: http://bit.ly/edm_cinema

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